sexta-feira, 31 de maio de 2013

Dialogando sobre formações, fazeres, atuações e exercícios profissionais dos/as biólogos/as [1]

ARTIGO DE OPINIÃO


Jackson Ronie Sá-Silva[2]

Recentemente ouvi de um biólogo licenciado que atualmente realiza estudos de mestrado no campo da Educação a seguinte proposição: “professor Jackson Ronie uma pessoa me questionou sobre minha formação de pós-graduação stricto sensu”. Segundo o biólogo a pessoa disse: "não consigo conceber como biólogo uma pessoa que não atua como biólogo. Biólogo é aquele que vai para o campo. É aquele que trabalha em laboratório". A pessoa, que por sinal exerce a profissão de biólogo/a disse ainda: "não sei o que uma pessoa formada em Biologia quer fazendo pós-graduação no campo educacional. Isso não é biólogo pra mim". Ao avaliar o discurso empreendido tanto pelo biólogo pós-graduando quanto pela pessoa que colocou em dúvida sua identidade de biólogo respondi:
Acho um grande equívoco a tese dessa pessoa. O/A biólogo/a licenciado/a é mais que biólogo/a. É um sujeito que exercita as ciências biológicas em sua mais produtiva complexidade. O biólogo licenciado (e a bióloga licenciada) é aquela pessoa que pensa a biologia para além dos dogmatismos e essencialismos das Ciências Biológicas. O que é um/a biólogo/a? Minha concepção de ser/estar biólogo/a vai mais além. Primeiro: biólogo/a estuda, pesquisa, trabalha (com) e ensina sobre objetos da vida. Disse: ‘ensina’. Mesmo tendo a insígnia de "biólogo do campo e do laboratório" esses sujeitos estão sempre ensinando. E já imaginou um/a biólogo/a licenciado/a!? Que beleza de profissional a sociedade terá! Um biólogo além de mexer em microscópios, coletar animais e vegetais, redigir laudos, monitorar ambientes, dissecar glândulas, músculos e cérebros, etc., etc., etc., ensina sobre o que dizemos ser a vida, ou melhor, as vidas. O/A biólogo/a-docente professa as epistemologias que a Ciência inventou/inventa sobre o que é vivo e o que não é. Segundo: precisamos pensar sobre pragmatismos, dogmatismos, essencialismos e fundamentalismos profissionais. Somos o que queremos ser. Se alguém frequenta uma faculdade de Biologia e quer seguir a carreira professoral isso jamais vai apagar a marca de biólogo/a construída. E se tentarem apagar podemos a qualquer momento reacender. Nossas identidades são (re) construídas a todo momento. Não acredito em fixidez de identidade. A identidade profissional tem dimensões estáveis e instáveis. Acho mais prudente dizermos: podemos ser/podemos estar. Sinto prazer quando percebo que os/as estudantes de Biologia enxergam para além das lupas, dos microscópios, do formol, dos GPS, dos protocolos e relatórios de campo, das medidas de um estômago de cavalo ou de um boto. Quando percebo que um/a estudante de licenciatura consegue perceber o naturalizado pelas Ciências Biológicas acredito que essa pessoa terá inúmeros diferenciais como profissional que opera com objetos biológicos: poderá agir com (hiper) crítica, desconfiará das naturalizações exacerbadas, conseguirá conectar o biológico ao sociocultural. Fico contente quando percebo que biólogos/as trilham pelos complexos e instigantes universos das ciências sociais. Biólogos/as façam também pós-graduações no campo educacional. Os objetos e epistemologias pedagógicas também podem conviver com lupas, GPS, pinças, béqueres, microscópios e bisturis. Sejam biólogos/as reflexivos...”.



[1] O texto foi produzido a partir de um diálogo que tive com um biólogo que decidiu seguir sua carreira acadêmica no campo pedagógico/educacional. O discurso do professor-biólogo me estimulou a problematizar esse tema. O texto foi escrito em 14 de maio de 2013.
[2] Licenciado em Biologia (UEMA), Licenciado em Química (UEMA), Farmacêutico-Bioquímico (UFMA), Especialista em Biologia (Universidade Federal de Lavras / UFLA – MG), Especialista em Metodologia do Ensino Superior (UFMA), Especialista em Sexologia (Universidade Cândido Mendes / UCAM – RJ), Especialista em Micologia (Escola Paulista de Medicina / UNIFESP / UFMA), Mestre em Saúde e Ambiente (UFMA), Doutor em Educação (UNISINOS – RS), Professor Adjunto do Departamento de Química e Biologia – UEMA, Professor do Curso de Ciências – Habilitações: Biologia, Física, Matemática e Química e Professor do Curso de Ciências Biológicas Licenciatura.

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