segunda-feira, 29 de abril de 2013

“Nascimento de um louco”


Loucura antes de qualquer coisa é vontade de manifestação, o concretismo de uma ideia. E mais loucura ainda é quando esta ideia cria pernas e se manifesta cerimoniosamente, tocando corpos influenciando tudo que nos é então evidente quando neste estado. O homem que contarei nesta história não é louco por mais que seja admitido como um, e o que ocorreu é o que ocorre quando se lê uma história, cada um entende de uma forma. Essa é a história que contarei.
Kepller estava como de costume pensando mais e falando menos, sempre pelos cantos, sem namorada, face inexpressiva, de vez em quando os sustos de comunicação intensa que logo se dissipava. Todos tinham uma teoria sobre kepller, e bem poucos achavam que sabiam do que se tratava.
----- Já surtou uma vez, trancou a universidade. Eu acho que ele só tá piorando. – diziam uns.
----- Eu acho que ele é gay cara, essas contradições são reflexos de sua crise de identidade - filosofavam outros.
----- Ou ainda: Rapaz que nada ele tá merecendo é uns socos.
Mas também é verdade que havia aqueles que embora não entendessem o viam como um comum. Ah como seria se talvez pudéssemos agarrar o verdadeiro.
A filosofia até o hoje tem uma enorme problema em entender o que é o concreto. Aliás, ela tem mostrado que no mundo das ideias estamos todos mergulhados numa subjetividade. E que fora dela nada mais há do que limitação de sentidos. A ideia de certo e errado passa depender de qual visão de interesse, que tribo, cultura e intenção subjetiva.  Para onde nos levará cada experiência de vida e até aguentarão nossos nervos com as coisas cheias de esforços em vão. Como necessitasse um gole de vinho, ou pelo clima existirá um motivo porque kepller bebe: o aniversario de um santo, da gata abandonada no campus. E na verdade é apenas uma frase que traduza aquele sutil “me deixe em paz com sua sobriedade”. Kepller está em cima de um tablado erguido acima dos joelhos, e de um dia inteiro assiste às pessoas que vão à biblioteca, assistem suas aulas, molham seus chinelos e sandálias encharcados pelos alagamentos.  Então uma pergunta surge... logo depois que se deita e percebe que apenas um lado do pequizeiro têm pequis. Do lado uma horta, trinta e três pés de feijão, dois caídos pela chuva, ainda mamoeiros, canteiros, composteira. Há pessoas jogando sinuca, continuam fumando. Raul diria se há alguém parado fumando sempre há um cérebro pensante...
 “Resistência!” É o que ouve kepller de alguém que se aproxima. Na sala de aula o professor ganha doze mil para fazer mímica com as mãos tentando explicar sobre a inserção do pedúnculo da folha em vertical do pé de milho. Lá fora, aqueles que se formaram e militaram estão lutando pela sua vida e nós aqui dentro tentando torná-la mais justa.
Daí o pensamento de kepller se volta na ideia de ir à procura de um livro na Biblioteca. Ele não gosta de ir lá e também deixou de gostar de muitas outras coisas. Depressão? Não, ele sabe que não. Duvidas liberdades de mais, consciência de mais. Não há movimento, e o grupo tem mostrado pouco sua cara, há alunos que preferem o concreto da universidade federal aos bosques em grama da grande estadual. É noite, a luzes dos postes são poucas, o lugar está deserto.
Está deserto agora. A reunião acontece e todo mundo concorda, todo mundo é amigo, tudo está certo e logo logo as ideias começam a tingir o ambiente. Uma ideia viva diz: “terei o meu emprego e me livrarei disto, deste saco pesado de ser universitário”. “Aliás, porque eu me meteria nessa confusão toda?” “Por que esses caros tão me bajulando e tendo o trabalho de me explicar coisas que eu nem sei se quero saber?” Ou então: “a ideia deles é boa mais nunca funciona”. Até agora kepller estava empenhado apenas em terminar sua birita antes da aula começar, mas surge aquele monstro, “A Imaculada Instituição” protetora e causadora de todos os bens sociais, venerem!
 ---- É por isso que estamos na universidade não? Diz ela andando meio desengonçada como se acabasse de aprender a andar por conta. E continua falando: “Os departamentos, as escolas, a biblioteca, ONGs, sindicatos todos nós precisamos nos sentir organizados e este coletivo é nossa instituição entrem sentem tomem um café, o mundo não se resolve só em um departamento, precisamos dos carimbos deles antes, portanto vamos agora ler o manual do labirinto com ele você poderá andar sem se corromper a ordem burocrática”.
 Daí como num instante fotográfico-hipnótico vem à vontade de entregarem as mãos e aceitarem diante tamanha gentileza de “A Imaculada Instituição” o acorrentamento dela. Dedicação e produção do conhecimento. Estamos prontos para fabricar mais modelos cognitivos de aceitação da realidade lá fora onde sentar na grama é idiotice e é normal fazer de rios e riachos córregos para o crescimento desordenado de cidades. Onde é comum alguém no mundo passar fome e não ter casa e é bizarro e vandalismo exigir terra pra plantar. Onde o tomate maior e mais bonito causa câncer devido a tantos agrotóxicos. E você recém-saído da universidade prestará concurso e irá para dentro de uma instituição que já definiu o que você fará. Se professor dará a técnica e algum estímulo para continuar estudando.
Sim A Imaculada Instituição que te levará para outra instituição. Enquanto isso alguém discursa que somos alternativos, somos diferentes, pois temos dialética e lutamos contra o sistema, o sistema é mau e nós o bem, a cura. Não mudaremos o mundo mais podemos contribuir para uma transformação graças aos grupos alternativos como esse. Então explicaremos pra você quem são os maus:
------ “Reitor, governador, diretor, chefe, presidente e seus funcionários. As empresas privadas também são más. Já os bons são os que estão na faixa de pobreza, os pobres que como nós lutamos pra subir na vida para que um dia ganhemos o direito de comprar um flat na orla, os sem terra e os discriminados por questões de gênero, credo e cor também merecem um flat. Entendido? - o palestrante pergunta. E enfatiza: quem está lá é mau e quem está aqui é bem.
Passa um minuto kepller volta pra si e se da conta que quanto mais simples algo se torna menos incompreensível poderá ser. Não sabemos a diferença entre o bem e o mau, tudo é muito, em grande quantidade, pois objetiva nos confundir sobre nossas vontades, e que as instituições são as correntes manipuladoras de nossas vontades e subjetividades. Ai! A instituição é uma prisão subjetiva feita para o seu subjetivo não agir. Então nós os maiores hipócritas dessa instituição pregamos a libertação da própria estrutura. Não seria mais lógico está fora de seus laços? E coerentes seriam aqueles aos quais chamamos apáticos e pelegos do movimento. Mentimos para nós e para os novos integrantes. Ai! Criamos mais uma geração de fascista. É possível suportar tamanha contradição em menos de um minuto e manter a boca fechada? Não para kepller: nasce um louco, identificado taxado explicado e que fora exagerado por suas palavras iniciais, fora tido como causador da segregação hierárquica, arrogância sem sentido. “Não espante os calouros disseram alguns”. E em seguida kepller foi informado que sua opinião não seria necessária.
Então kepller pensou em refutar, abriu a boca e mudou de ideia: Eu vou assistir a minha aula que eu ganho mais tempo.
Aonde essa história irá parar? Que significado ela terá? Num pedacinho do planeta localizado numa das pontas de uma espiral da via láctea localizada entre bilhões de galáxias?
Todos olham para o céu e a lua brilha, outras coisas brilham, estrelas giram em torno de nossas cabeças e Erbert não bebe está sentado, não fala. Kepller tem prazer pelo nascimento de um louco.