ARTIGO
DE OPINIÃO
Recentemente ouvi de um biólogo
licenciado que atualmente realiza estudos de mestrado no campo da Educação a
seguinte proposição: “professor Jackson Ronie uma pessoa me questionou sobre
minha formação de pós-graduação stricto
sensu”. Segundo o biólogo a pessoa disse: "não consigo conceber como biólogo uma pessoa que não atua como biólogo.
Biólogo é aquele que vai para o campo. É aquele que trabalha em laboratório".
A pessoa, que por sinal exerce a profissão de biólogo/a disse ainda: "não sei o que uma pessoa formada em Biologia
quer fazendo pós-graduação no campo educacional. Isso não é biólogo pra mim".
Ao avaliar o discurso empreendido tanto pelo biólogo pós-graduando quanto pela
pessoa que colocou em dúvida sua identidade de biólogo respondi:
“Acho
um grande equívoco a tese dessa pessoa. O/A biólogo/a licenciado/a é mais que
biólogo/a. É um sujeito que exercita as ciências biológicas em sua mais
produtiva complexidade. O biólogo licenciado (e a bióloga licenciada) é aquela
pessoa que pensa a biologia para além dos dogmatismos e essencialismos das
Ciências Biológicas. O que é um/a biólogo/a? Minha concepção de ser/estar biólogo/a
vai mais além. Primeiro: biólogo/a estuda, pesquisa, trabalha (com) e ensina
sobre objetos da vida. Disse: ‘ensina’.
Mesmo tendo a insígnia de "biólogo do campo e do laboratório" esses
sujeitos estão sempre ensinando. E já imaginou um/a biólogo/a licenciado/a!? Que
beleza de profissional a sociedade terá! Um biólogo além de mexer em
microscópios, coletar animais e vegetais, redigir laudos, monitorar ambientes,
dissecar glândulas, músculos e cérebros, etc., etc., etc., ensina sobre o que
dizemos ser a vida, ou melhor, as vidas. O/A biólogo/a-docente professa as
epistemologias que a Ciência inventou/inventa sobre o que é vivo e o que não é.
Segundo: precisamos pensar sobre pragmatismos, dogmatismos, essencialismos e
fundamentalismos profissionais. Somos o que queremos ser. Se alguém frequenta uma
faculdade de Biologia e quer seguir a carreira professoral isso jamais vai
apagar a marca de biólogo/a construída. E se tentarem apagar podemos a qualquer
momento reacender. Nossas identidades são (re) construídas a todo momento. Não
acredito em fixidez de identidade. A identidade profissional tem dimensões
estáveis e instáveis. Acho mais prudente dizermos: podemos ser/podemos estar. Sinto
prazer quando percebo que os/as estudantes de Biologia enxergam para além das
lupas, dos microscópios, do formol, dos GPS, dos protocolos e relatórios de
campo, das medidas de um estômago de cavalo ou de um boto. Quando percebo que
um/a estudante de licenciatura consegue perceber o naturalizado pelas Ciências
Biológicas acredito que essa pessoa terá inúmeros diferenciais como
profissional que opera com objetos biológicos: poderá agir com (hiper) crítica,
desconfiará das naturalizações exacerbadas, conseguirá conectar o biológico ao
sociocultural. Fico contente quando percebo que biólogos/as trilham pelos
complexos e instigantes universos das ciências sociais. Biólogos/as façam
também pós-graduações no campo educacional. Os objetos e epistemologias
pedagógicas também podem conviver com lupas, GPS, pinças, béqueres,
microscópios e bisturis. Sejam biólogos/as reflexivos...”.
[1] O texto foi produzido a partir
de um diálogo que tive com um biólogo que decidiu seguir sua carreira acadêmica
no campo pedagógico/educacional. O discurso do professor-biólogo me estimulou a
problematizar esse tema. O texto foi escrito em 14 de maio de 2013.
[2] Licenciado em Biologia (UEMA),
Licenciado em Química (UEMA), Farmacêutico-Bioquímico (UFMA), Especialista em
Biologia (Universidade Federal de Lavras / UFLA – MG), Especialista em
Metodologia do Ensino Superior (UFMA), Especialista em Sexologia (Universidade
Cândido Mendes / UCAM – RJ), Especialista em Micologia (Escola Paulista de
Medicina / UNIFESP / UFMA), Mestre em Saúde e Ambiente (UFMA), Doutor em
Educação (UNISINOS – RS), Professor Adjunto do Departamento de Química e
Biologia – UEMA, Professor do Curso de Ciências – Habilitações: Biologia,
Física, Matemática e Química e Professor do Curso de Ciências Biológicas
Licenciatura.



